quinta-feira, 26 de maio de 2016

No Rio, 2001...há 15 anos

MAIO DE 2001.

Amanhã , dia 27, vai fazer 15 anos... Parece que foi ontem!

“E o técnico Zagallo olha para o relógio: 43 minutos, coça a cabeça.
Talvez Luiz Penido não soubesse que, ao assinalar o momento exato da cobrança, oficiava menos como radialista e mais como historiador. Washington Rodrigues, ao seu lado, intuía, ele sim, que estava prestes a presenciar um feito histórico da magnitude dos descobrimentos, da primeira explosão atômica, da ascensão do Cristo ou do gol mil de Pelé. Acusa a presença do sobrenatural, ali personificado no padroeiro São Judas Tadeu, que segundo ele “acaba de chegar”.
E a voz de Luiz Penido será, pelos séculos dos séculos, a moldura do mais belo quadro jamais pintado por um cobrador de faltas. Lá se vão dez anos, e todo rubro-negro que se preze ouviu a narração quinze, vinte, duzentas vezes. Muitos a decoraram como quem decora o hino nacional, o creio-em-Deus-padre. Gerações futuras de rubro-negros crescerão na segurança de que a voz do Penido, eternizada, lhes dará sempre a noção exata do que sentiram seus pais, avós, bisavós naquela tarde carioca de 27 de maio de 2001. 
Em 27 de maio de 2001, ali pelas cinco da tarde, o pé direito de Dejan Petkovic nos fez tocar o céu com as mãos. 
Não foi apenas o gol que nos deu um tricampeonato: foi o gol que — caso único na história do futebol — enterrou para sempre uma rivalidade secular. Percebam: até Fabiano Eller derrubar Edílson, na intermediária defensiva do Vasco, a torcida inimiga canta com a empáfia de quem olha o adversário de igual para igual. Três anos antes desfilaram troféus em frente à Gávea. Quatro meses antes arrotavam, desonestos que só eles, uma falsa igualdade em número de títulos brasileiros. Segundos antes, cantavam a certeza de que, desta vez, e para sempre, vice é o car..... 
Mas, às cinco da tarde, quis o destino que coubesse ao mais improvável dos artífices enterrar para sempre aquela soberba: um rapaz nascido a dez mil quilômetros dali, e ali desterrado depois que a guerra, as sanções e um banqueiro judeu o convenceram a ganhar o pão, com seu talento, a meio mundo de casa. 
Desde que os nossos remadores sentaram a pá na cabeça dos vascaínos que acudiram às Laranjeiras, e dentro de campo Candiota, Nonô e Junqueira fizeram do Flamengo o único time a bater aquele Vasco das camisas pretas, por 73 anos essa gente viveu com uma única obsessão: suplantar o Flamengo. 
Em 27 de maio de 2001, com os 2 x 1 no placar, e tendo conquistado dois Brasileiros e uma Libertadores num espaço de cinco anos, tinham certeza de que esse dia estava próximo. Aos 43 do segundo tempo ruiu tudo, e aquele Vasco multicampeão seria lembrado, apenas e tão-somente, como o tri-vice-campeão, o esquadrão talentoso que tremeu toda e cada vez que decidiu contra o Flamengo. E, desde então, todo vascaíno desvia o olhar quando cruza com um rubro-negro. 
Isso foi obra de Dejan Petkovic. 
Deus te abençoe, Gringo.”

                               ( trecho do texto de Pablo Duarte Cardoso/ reprodução)

VALE OUVIR E VER ESSE GOL INESQUECÍVEL...

. NA NARRAÇÃO PELA RÁDIO!





A IMAGEM DO MOMENTO!





Torcemos para que nosso MENGO se reencontre com as vitórias, com a raça e a paixão que fazem parte do seu DNA.




segunda-feira, 23 de maio de 2016

Ninguém quis a Linda Morena, no Rio

MAIO DE 1976.


Há 40 anos uma placa de rua
deu o que falar e
foi motivo de apreensão.


Colocada numa transversal da Rua Lauro Muller, em Botafogo, com os dizeres “RUA LINDA MORENA ( música popular brasileira)”, a placa causou intranquilidade entre os moradores da área.

O temor dos moradores foi que a Prefeitura estendesse a denominação até a Lauro Muller, já que a rua não tinha, sequer, uma placa indicativa do seu nome. Daí que pretenderam a promessa de que a rua não perdesse seu nome tradicional.

A historiadora Maria Cecília Ribas Carneiro, à época, moradora da área, defendeu a permanência do nome Lauro Muller.

“ Ele foi ministro da Viação do governo Rodrigues Alves,
além de ministro das Relações Exteriores
do governo Venceslau Brás.
Um homem ilustre, afinal.
Meu pai se dava muito bem com Lamartine Babo,
a música é muito bonita,
mas tirar o nome de Lauro Muller
para colocar “Linda Morena” é ridículo.
O prefeito Marcos Tamoyo
não tem o menor senso histórico”



Mudar nome de rua, no Rio, tem vezes que não dá certo. Alguns nomes se cristalizam na preferência carioca e ... não tem jeito.

Por exemplo, tentaram mudar o nome de Rua São Clemente para Rui Barbosa, não deu certo. O mesmo já aconteceu com a Rua Real Grandeza , quando os republicanos tentaram em vão mudar seu nome para Rua Sergipe; Rua das Marrecas, se tornou Rua Juan Pablo Duarte  e voltou a ser Rua das Marrecas;  Rua dos Inválidos , foi Rua Menezes Vieira e voltou atrás. Recentemente, a Avenida Vieira Souto,  se tornou Tom Jobim, com a morte do maestro, mas o nome não pegou.
Controvérsias e discussões à parte, a Rua Lauro Muller continuou a ser Lauro Muller. Aliás, nunca houve intenção de trocar o nome. 


A homenagem à composição de Lamartine Babo só foi para nomear uma transversal. Não deu certo e hoje foi renomeada de Rua Marechal Ramon Castilla, homenagem ao peruano, figura histórica, grande marechal do Peru, considerado herói de toda a América, que chegou ao Rio em 1815 onde, ajudado por compatriotas brasileiros pode em 1817, iniciar sua grande viagem através do Brasil até atingir Lima, passsando por Cuiabá e pelo próprio planalto. Cognominado o Soldado da Lei é considerado um profundo americanista que guardou um profunda amizade pelo Brasil. Não apenas uma figura peruana, mas brasileira.


Abaixo, as fotos da mesma esquina, em 1976 e nos dias atuais.



sexta-feira, 20 de maio de 2016

Rio... as ressacas de maio

Mês de maio, no Rio é... mês de ressacas.

Todo cuidado é pouco, pois as maiores ressacas da cidade aconteceram  nesse mês. Algumas apenas com ondas belas e perigosas, algumas com grande destruição.



Ressaca dos anos 60, na praia de Copacabana, as águas invadindo a rua e chegando até os prédios.
andredecourts foton från 2004-11-09

Ressaca de maio de 1999, na Urca


As raras ressacas na Baía de Guanabara

  •  em maio de 1997 e que invadiu o Aterro do Flamengo





  • em maio de 2010, a chegada de uma forte frente fria, combinada com a passagem por um ciclone extratropical no Rio, provocando  a formação de ondas de até 10 metros aos pés do Pão de Açúcar, que possibilitou o inusitado surf de ondas gigantes cariocas.



Nos últimos tempos, as ressacas atingem mais a orla do Leblon, geralmente na altura do posto 11, encobrindo a praia, ultrapassando o calçadão e chegando a entrar nas transversais, como aconteceu muitas vezes na Avenida Afrânio de Melo Franco, tanta é a fúria do mar. Toneladas de areia são projetadas além da praia.


  • como em maio de 2001







  • como em maio de 2011


A natureza mostrando seu poder.



terça-feira, 17 de maio de 2016

Antiga loja A Triunfante, no Centro do Rio


Propaganda carioca curiosa e inusitada,
publicada em maio de 1956.
Há 60 anos

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domingo, 15 de maio de 2016

Crônicas Cariocas de Todos os Tempos...Leblon


Vale somar com o post anterior sobre o Leblon


"O fascínio que sobre mim exercem a graça e a inteligência das reflexões de Elsie Lessa fazem-me, sempre que posso, reler suas histórias, e foi numa dessas vezes que reencontrei, recentemente, a descrição de um eclipse observado ao longo da avenida da praia, por onde vinha a cronista, em marcha lenta, desde "os confins do Leblon". 
Fixei-me, surpreso e enleado, nessa referência. Entrevi, no belo cenário descrito, uma nesga entre os restos de sol de um céu azul escuro e antigo, e enfiei-me de mansinho numa tarde qualquer de 1950. 
Era, com efeito, o Leblon um dos extremos da cidade. Pra lá do canal da Avenida Niemeyer, só iam pescadores que moravam no Vidigal e alguns aventureiros motorizados à cata de um sítio ermo para seus encontros furtivos na Barra da Tijuca, então, apenas, um acidente geográfico com mar batido e enorme areal coberto por vegetação rasteira e espessa - uma espécie de jibóia entrelaçada - que fazia as vezes de leito para um ou outro casal mais afoito. 
No mergulho proustiano que empreendi, vejo-me, à noitinha, cercado de garotos como eu, sentado na calçada da praia, sob a iluminação fraca de grandes luminárias guarnecidas de arabescos, encimando meia dúzia de pesados postes de ferro, tentando adivinhar o algarismo final da placa dos automóveis. De trinta em trinta minutos passava um deles, e iniciávamos outra rodada de apostas. A quietude e a ausência quase total de transeuntes, que pudessem desviar nossa atenção, estimulavam o hábito da conversação; os assuntos, sempre os mesmos, mas as opiniões, variadas. Ainda não havíamos sido cooptados e globalizados pela tal da mídia; a televisão engatinhava, era experimental. 1984, de Orwell, não chegara ao Brasil, pelo menos na atual versão tupiniquim. 
Raros como os postes, um homem aqui, um casal acolá podiam ser vistos, de vez em quando, a passeio. Mulheres sós, nunca. Às oito e pouco, recolhíamo-nos às nossas casas. Nós e todo o mundo, que o comércio há muito tinha cerrado as portas e cessava o movimento pelas ruas. O monumental silêncio só era quebrado pelo ranger dos bondes nos trilhos, o coro lamuriento da gataria ou pela voz de uns poucos notívagos a caminho do botequim. 
Antes de tornar-se via migratória e serventia da diáspora rastaqüera e point de agito de arrivistas, intelectuais de araque e oligóides, o Leblon foi um bairro muito bacana. 
Dois ou três botecos, entre o canal e o Jardim de Alá, ficavam abertos até as onze horas, se tanto, para atender motoristas de lotação, motorneiros e boêmios. Estes últimos, sempre os mesmos velhos conhecidos, reuníam-se para falar sobre futebol e outras amenidades, e relaxar um pouco antes de ir dormir. Crianças só entravam nos bares durante o dia, para comprar balas ou dar recados. 
Não existiam cadeiras nas calçadas, carros à porta com rádio ligado alto, brutos suarentos a urrar disputando lugares, nem risos histéricos de mulher. Não havia pressa; a cerveja era servida muito gelada e podia-se pedir, no máximo, ovo cozido e pão com mortadela ou queijo. A maioria ia bater papo, e quem quisesse comer, que fosse fazê-lo em casa (comida feita com banha de porco tirada de uma lata com desenhos de coqueiros verdes). Dispensavam-se exibidos profissionais. Claro que havia babacas, que esses pululam em todas as épocas, mas ainda não predominavam... pelo menos nos botequins. 
Nada dos incensados Bracarenses da vida (já falei da liberdade de escolha, e de que as individualidades não tinham sido totalmente dizimadas?). O Recarey, quando apareceu (por volta de 56, mais ou menos, - eu já freqüentava os botecos e lembro- me muito bem-) era comim do Três Vinte, onde é hoje a Pizzaria Guanabara, sede de um desses malfadados baixos que proliferam por aí, acolhendo maltas de romeiros automatizados, flutuando a um milímetro da discórdia. 
Naqueles tempos, as pessoas encontravam diversão nos bairros em que residiam e só transitavam por outro a caminho do trabalho ou em visitas ocasionais. O Leblon não servia de acesso a lugar algum, já disse, ficava nos confins: era o extremo sul, ponto de partida ou de chegada. Uma aldeia encantada, em grande parte por esse motivo. 
No mais, sem carros, baixos, visitantes desagradáveis, as ruas eram nossas e as desfrutávamos de pés descalços, casimirianamente, donos do pedaço, até porque os adultos gastavam os dias envolvidos nos afazeres domésticos, ou na cidade. Impunha-se ir à cidade para trabalhar, ir ao dentista ou médico, para negócios de qualquer natureza e para compras maiores. Perto de casa só havia quitanda, farmácia, barbeiro, padaria e botequim. Ah! Tinha, também, o armarinho, no qual mamãe mandava comprar retrós mercerizado, com a Joana, filha do dono e irmã do Nagib, que morreu novo, coitado, e muitos terrenos baldios, também, onde se jogava bola e caçava-se rolinha, para quem se lembra disso: de terra batida, bem carecas no meio e muito capim alto roçando os muros. Como ocorre às crianças, pareciam-nos imensos, verdadeiros Maracanãs. 
Anti-sociais ou gregários, nem pensar, já que todos se conheciam muito bem. Tímidos, abusados, é certo que os havia; distribuíam-se por turmas, geralmente conhecidas pelos nomes das ruas. Algumas dessas ruas guardavam ainda suas designações indígenas originais, que, aos poucos, foram substituídas pelos nomes dos generais sul-americanos, cuja bravura livrou-nos da invasão dos marcianos e de outras graves ameaças. Uma briguinha, vez por outra, logo seguida de ruidosa confraternização, animava uma saudável rivalidade entre aquelas corriolas. 
Graças à inexistência de attaris e tamagotchis, jogava-se bola o dia inteiro. O resto do dia inteiro era curtido na praia. Mas isso, a convivência entre os ricos e os pobres da Praia do Pinto, num bairro em que preponderava a mais genuína classe média, e otras cositas mas são assuntos que demandam novos espaços, novas crônicas. 
Por enquanto, vou matando a saudade, reconfortando-me com uma primeira dose dessas coisas velhas e ricas que tive a ventura de possuir e testemunhar. Acho que precisava olhar para trás e veio-me na hora certa. Não agüento mais consumir essa vida que não pára e, ao mesmo tempo, não leva a nada. Angústia por angústia, prefiro a sofreguidão que possam causar-me essas recordações à trama diabólica que me atormenta e atrela a esse cometa estúpido, obstinado, que me carrega por onde não quero ir."

( Reprodução do livro O Antigo Leblon – uma aldeia encantada , escrito em 1999, por Rogério Barbosa Lima)